Neste final de semana assisti a Batman - O Cavaleiro das
Trevas. Ainda bem que publico meu parecer sobre esta
produção em um blog e não em algum
conceituado
veículo de comunicação, coisa que estou mais
acostumado, vide os tempos d´A ARCA e,
agora, do DELFOS.
Digo isso porque aqui vai um aviso: SE VOCÊ
NÃO ASSISTIU AO FILME, PARE DE LER AGORA. NÃO POSSO
FAZER JUZ A ESSA PELÍCULA SEM CITAR SPOILERS.
Pronto? Então vamos lá.
A humanidade é podre? Não é? Tem
salvação? Não tem? Através de todos os
personagens e do modo como Batman
(Christian Bale) encara sua fanática
missão é que
questões como essas são levantadas. E já vou
logo para o cerne do filme, porque não vou perder tempo
postando o resumo da história aqui porque como
já
citado, esta é uma crítica para quem já
assistiu a mais nova aventura do morcegão nas telonas.
Da forma como o Coringa (soberbamente interpretado
pelo infelizmente falecido Heath Ledger) é
proposto, eu o vejo como a representação dos
instintos mais
básicos e contundentes do Homem. Em uma
situação de vida e morte, você recorreria ao
seu instinto animal de sobrevivência e deixaria outra pessoa
se dar mal
para poder ver mais algum amanhecer? E se você acaba deixando
o véu da sociedade cair e aceita que, mesmo no dia-a-dia as
pessoas são assim, não precisando
estar em situações de risco? Você dormiria mais
tranquilo à noite? Como ficaria sua consciência? O
coringa é sádico, medonho, sem limites, total e
completamente anárquico. E é como ele diz: mata,
rouba, causa o caos e não por materialidades ou "pelo
dinheiro" e sim para "passar uma mensagem".
Como na graphic novel A Piada Mortal, soberbamente
escrita pelo britânico Alan Moore (onde
há muitas referências no filme), ao chegar no final,
é impossível
não ter a sensação de que apesar de tudo, o
Palhaço do Crime é o único sinceramente
são em um mundo onde milhões são gastos para
produzir programas fúteis
como a maioria dos mostrados por canais como o E!
Entertainment Television ou pessoas "da elite" que possuem
uma casa apenas para guardar sua coleção de sapatos -
onde a maioria sequer será usada - ao mesmo tempo em que
comida e remédios são negados a povos como o da
Etiópia ou Mianmar.
Ao lidar com Batman, o promotor público Harvey Dent
(Aaron Eckhart) e o tenente James Gordon (Gary
Oldman) e, de um modo igual, mas ambivalentemente
diferente de certo modo, o Coringa quer provar por A + B que
não temos salvação. E é na
degradação dos três personagens, principalmente
no caso de Dent - por ser o "homem da esperança" de Gotham -
que o clássico vilão quer mostrar seu ponto de vista
ao mundo. O Coringa, por incrível que pareça, quer
abrir os olhos da humanidade. É um objetivo nobre, mas seus
métodos é que não são nada
exemplares.
E o pior é que simpatizo com ele.
Ao mesmo tempo em que é um excelente entretenimento,
é um senhor tapa na cara de toda a sociedade "moderna" sobre
o comportamento que temos para com o próximo. Chego a
comparar o Coringa de Batman - O Cavaleiro das Trevas a um "jesus
às avessas". Onde o filho de Deus tentava fazer com que nos
uníssemos e tivéssemos respeito e
consideração para com o próximo através
do amor, o Coringa quer o mesmo, mas revelando nosso defeitos ao
exaltá-los de forma fortemente perturbada.
E simpatizo com ele devido a certas sensações que
sempre tive nos últimos anos e que vem ficando cada vez mais
exacerbadas recentemente. E este filme me mostra mais um prova,
independente da decisão - talvez contraditória em um
mundo real e não em um filme - que os reféns nos dois
barcos com explosivos tenham tomado, a humanidade infelizmente
não tem o menor pingo de bom senso e... hmmm...
"humanidade". Para exemplificar melhor, sou até obrigado a
dissecar tais pontos de vista que possuo.
Estou cansado de me irritar. Todo dia o mundo me irrita. A
única coisa pior que ficar irritado seria não me
irritar. Aceitar... sucumbir... submeter-se... render-se...
No processo de criação de cada viagem
artística minha, leio toneladas de livros, tantos quanto
quem me conhece já deve saber. Livros são
simplesmente fantásticos. Eles são muito melhores que
televisão. Não me entenda mal, televisão tem
toda possibilidade e potencialidade para se tornar ainda mais
fantástica, mas, mesmo assim, ela terminantemente falha de
novo e de novo - e talvez seja por isso que talvez eu só
assista mesmo a seriados e a documentários, qualquer coisa
que não seja para passar uma mensagem ou algo mais
informativo mesmo acabo vendo como lixo. Então, quanto
melhor o livro, mais eu tendo a me irritar. Eles me deixam a par de
segredos que são, aparentemente, nenhum segredo. Esses
não-segredos apresentados são geralmente uma grande
razão para se irritar – sua ausência na
mídia contemporânea é uma razão ainda
maior. Como é isso?
Os livros me contam sobre a expulsão de indígenas de
áreas de mineração de Urânio e
armazenamento de lixo nuclear, enquanto que a televisão me
vende a imagem confortável de uma indústria segura,
ou ainda pior, um outro episódio de novela.
Os livros contam fatos alarmantes sobre nós tendo 800 vezes
mais matéria radioativa em nossos ossos do que as duas
últimas gerações. Livros me dizem que o
sério mundo da ciência é mais ou menos
convergente quanto a questões como o aquecimento global, a
idade do universo, os perigos físicos e comportamentais dos
campos magnéticos e a radiação de telefone
celular. Eles também me contam que 75% das pesquisas que
alegam nenhum perigo para isso são financiadas pela
indústria. Hoje em dia a televisão é falha por
não me informar isso.
Seriam necessários somente 30 minutos para George W.
Bush ir a uma biblioteca e ler, em um livro de
história, os motivos para que sua política só
traga ruína e desastre social. Para cada pedaço de
informação crucial que me mostra as engrenagens do
sistema que faço parte, mais alto devo gritar: "Por que? Por
que ninguém me disse isso antes? Por que eu tenho que
pesquisar e descobrir isso em um livro? Por que essa
informação não está na
televisão, nos jornais, nas mentes e lábios de
todos?" E é aí onde o livre mercado mostra sua face
mais horrenda – em uma sociedade onde até mesmo as
notícias estão à venda.
Como é que pode os resultados esportivos ser destaque todos
os dias? Por que ainformação sobre tempo é
destaque todo dia? Por que eu posso achar diariamente a
disposição da bolsa de valores, mas não a
maioria das leis que foram votadas e aprovadas nesse mesmo dia?
Como é que não ficamos sabendo que recentes testes
experimentais mostraram que foram necessárias somente duas
gerações para tornar ratos irreversivelmente
estéreis após exposição à
radiação GSM, enquanto que a
fertilização da espécie humana vem caindo
juntamente com as colheitas que nós intencionalmente
esterilizamos para ter lucro? Ou que suicídio mata mais
pessoas do que homicídios e guerras somados, apesar de
alcoolismo conseguir vencer até mesmo isso em 250% mais ou
menos.
Como é que podemos não saber disso quando sabemos
até que a idiota da Paris Hilton mostrou os
seios nesse ou naquele bar hoje? Por que me contam os nomes dos 10
mais vendidos artistas todo dia, mas não os nomes dos que
controlam as 10 maiores companhias do mundo? E quando a
televisão debate sobre o ambiente uma vez por ano, como as
pessoas podem debater sobre o aquecimento global, no horário
nobre, sem saber que a mudança do clima nos parecerá
mais como um tempo instável do que uma mudança na
temperatura? E é aí que a coisa se torna mais
horrível... porque é isso que queremos.
Desagradável, hein? Isso foi o que escolhemos para
nós mesmos.
Entenda, eles nos darão o que desejamos, para ter mais
ibope, mais compradores, mais confirmação e, enfim,
mais dinheiro. "Valor da notícia" é um termo que
definimos por nossas ações e reações.
Nós dizemos quando uma "notícia vale a pena" ao
ligarmos a televisão para assisti-la. Resultados do futebol?
Claro! Fofoca? Por que não!? Reality shows humilhantes? Sem
problemas! Eles nos alimentarão com o que comemos – os
clientes decidem, certo? A definição da era humana
contemporânea é então: "A Sociedade da
Informação"? "A humanidade cultural"? "A vila
global"?
Todos abertos a lances – nós compramos notícias
e eles vendem para o maior lance. Alguém aí ainda
merece algum voto?
Alguém? Nós decidimos.
Muitas pessoas disseram que música e política
não se misturam ou combinam. Nesse caso, música e
estupidez parecem ter combinado perfeitamente, desde que a
afirmação acima é algo a que só posso
me referir como Comentário Profundamente Estúpido
(coloque aqui o símbolo de "marca registrada). Tudo é
política. A blusa que você usa nesse momento é
política. Independente de como ela é ou de quanto ela
custou, ela tem uma etiqueta política adicional que diz: "Eu
concordo com a companhia que fabricou essa peça de roupa. Eu
aceito suas políticas, éticas e ações.
Eu escolho apoia-la com meu dinheiro." Porque toda vez que gastamos
dinheiro, toda vez que escolhemos falar ou não falar algo,
nós tomamos decisões políticas.
Nós mudamos o mundo, se quisermos e aí vai um
exemplo: www.care2.com
É tudo uma questão de se tornar ciente do enorme
poder que temos. Toda canção por aí é
política. Melhor, então, é estar ciente da
mensagem que você transmite. Melhor, ainda, mudar
intencionalmente. Nós decidimos.
O Capitalismo falhou completamente conosco nesse sentido, e
nós ainda precisamos começar a entender isso.
Nós ainda culpamos tudo isso em premissas excepcionais: os
comunistas, os anos 80, a natureza, os eleitores, os que votam
nulo, a religião, o secularismo... qualquer coisa. Eu culpo
VOCÊ. Eu culpo a gente. O fato é que eu posso dizer
para Paris Hilton ir se lascar com um simples botão, mudando
o canal para o Discovery Channel ou para o
maravilhoso mundo da televisão pública de alta
qualidade (que aparece em tempo de dar seu último suspiro
nesse mundo cínico). Eu posso dizer ao
McDonalds, ou Habibs, para ir se
danar apenas não fazendo nada, apenas não passando
por suas portas. Livre escolha do consumidor. Isso é
tão simples.
O Capitalismo me ensinou isso, junto com o entendimento
desagradável dos meus outros companheiros humanos nesse
planeta.
E se isso estiver certo, eu não sei se devo rir ou chorar.
Olha só, se é realmente tão fácil assim
mudar o mundo (e é), então só existem duas
explicações para o mundo que eu vejo ao meu
redor.
Uma explicação seria que nós somos
tremendamente estúpidos por não estarmos cientes
desse poder e/ou ignorantes o suficiente para não
aprendermos.
Eu realmente não quero acreditar que a humanidade é
um caso perdido. Eu seria, pelo padrão
sócio-político, um revoltado por considerar meus
próximos tão estúpidos e egoístas. Isso
me deixa somente com a outra sórdida
explicação: nós realmente queremos isso.
Pronto, falei. Nós queremos tudo isso. Nós criamos
tudo isso.
Nós decidimos. Portanto: nós queremos o efeito
greenhouse. Nós queremos armas. Nós queremos guerra.
Nós queremos a fome do Terceiro Mundo. Nós queremos
hierarquias patriarcais. Nós queremos violência.
Nós queremos outra seqüência de
Pânico, Eu Sei O Que Vocês
Fizeram No Verão Passado ou Legalmente
Loira. Nós queremos tablóides. Nós
queremos Fica Comigo na MTV.
Nós queremos novelas. Nós queremos George W. Bush.
Nós queremos preços mais baixos e menores impostos a
qualquer custo social. Nós queremos nossa impressão
digital nos aeroportos. Nós queremos o aumento dos cortes
nos direitos democráticos. Nós queremos infringir
nossa própria integridade. Nós queremos
notícias amigáveis para o Mercado. Nós
queremos pesquisas científicas financiadas por
indústrias. Nós queremos medo.
Isso foi o que decidimos. Isso foi o que escolhemos para nós
mesmos (eu acho que a primeira explicação não
parece tão ruim agora, né?). Nós
trocaríamos a paz global por uma vida fácil num
piscar de olhos.
E nós trocamos. Isso é o que me enoja. Isso é
o que apavora. Que me marca. Mas, principalmente, é o que me
irrita. E como eu já falei pra vocês, estou cansado de
me irritar. Mas esse cansaço também me diz que eu
ainda não desisti. Meu sistema ainda está lutando.
É como uma febre letal em potencial que me diz que ainda
existe esperança. Então eu trato com carinho essa
esperança como se fosse uma fraca luz no limite de um
horizonte escuro, como um afogamento, ignorando o frio em meus
ossos por mais um segundo.
Eu me agarro a ela. Ela me faz continuar. Ela me ajuda a sobreviver
à fria água que pinga em meus pulmões com toda
incansável onda que esse mundo envia em minha
direção. Esse mundo que construímos e que
continuamos construindo. Nós decidimos. E isso me cansa. Mas
esse é o único cansaço ao qual eu aceito me
entregar.
Eu estou simplesmente cansado de me irritar – tão
terrivelmente cansado de me irritar! E talvez seja uma
sensação parecida que o Coringa tenha.
E o mais incrível é o véu que certas pessoas
possuem nos olhos. Em uma determinada cena, Batman poderia ter
matado o Coringa, atropelando-o, mas não o fez. E escutei
comentários de pessoas próximas, dizendo coisas como
"Ah, por que não atropelou? Batman viadinho esse..." - a
partir disso, fico com aquele pensamento: "É esse tipo de
coisa, de não ver nas entrelinhas, que acaba com a
sociedade". Batman não pode matar o Coringa como não
poderia fazê-lo com qualquer outro criminoso ou pessoa.
Não é pela simples razão de se rebaixar ao
nível do inimigo. É pelo simples fato de que se ele o
faz, nada do que Batman faça para criar esperança no
coração das pessoas será válido
depois.
Mas quando Bruce acha que poderia descansar com o surgimento de
Harvey Dent, o Coringa o destrói, criando o Duas-Caras, para
passar mais intimamente a mesma mensagem para o trio de
heróis que é passada para a cidade no caso dos
barcos.
Tratando-se de um cineasta do calibre de Christopher
Nolan, dono de pérolas como Pi,
Amnésia e Réquiem Para Um
Sonho, não esperaria menos. "Batman - O Cavaleiro
das Trevas" prova que uma história de super-herói
não precisa ser o esquema descerebrado de "mocinho pega
bandido e fica com a mocinha". É o filme do ano, sem
dúvida.